SOFIA LEITÃO UNWEAVING THE RAINBOW



Sofia Leitão

Texto de GISELA LEAL.

"Damballah deu forma a todas as águas da terra.
Sob a forma de uma serpente criou, com o seu movimento de sete mil anéis, vales e colinas e trouxe para perto as estrelas e os planetas do céu. De seguida, forjou no fogo placas de metal que lançou à terra sob a forma de um raio e criou as pedras sagradas. Chegada a altura de trocar a sua velha pele, a serpente Damballah deixou-a cair sobre o sol, libertando assim as águas que retinha desde sempre dentro de si. O sol passou então a brilhar sobre a água e deu forma ao arco-íris. Encantado com a sua enternecedora beleza, a Serpente do Céu fez de Aida-Wedo, o arco-íris, o seu esposo. Uniram-se assim para criar o homem e a ele revelar a sua palavra.
"

Uma cosmogonia é uma explicação para a criação do mundo (cosmos) dada por uma determinada cultura ou religião num determinado momento. É um conceito que implica finitude, irreprodutibilidade, estatismo; enfim, encerramento em si próprio. Partimos do campo da criação mitológica, da produção colectiva de poéticas e narrativas mágicas que sustentaram durante séculos crenças e mitos, para a explicação do universo, para a compreensão dos mistérios da vida. Ainda sem ciência e sem filosofia, empirismo ou racionalismo. Um pensamento mágico que enformou o homem na interpretação e compreensão de si próprio e do universo ao longo dos séculos.

Neste novo trabalho de Sofia Leitão, dispostas sobre uma mesa de trabalho, de madeira rústica, possivelmente saída de um anfiteatro do século XIX, sete esculturas estão preparadas para um processo de dissecação. Pelo olhar do público neste caso. São cristais, organismos com estruturas eventualmente classificáveis no sistema procurado por Roger Caillois (1913-1978) para sobredeterminar permanentemente o irracional, um sistema que contivesse tudo o que até então tinha sido excluído por uma razão ainda incompleta.

Roger Caillois, polímato, analista social de rituais e crenças, entre outros interesses, e colega surrealista de Andre Breton teve um dia uma discussão com este a propósito de uns feijões mexicanos saltitantes que lhes foram apresentados: Callois, curioso com o seu interior, supondo que neles encontraria uma larva, queria dissecar um deles; Breton opôs-se, acusando Caillois de ser um mero positivista que recusava o maravilhoso e o poético procurando explicações e de pertencer, assim, aos que queriam “desvendar o arco-íris” (unweave the rainbow). Enquanto para Breton o «hasard objectif – acaso objectivo ou imprevisibilidade – disrumpia admiravelmente os padrões harmoniosos da razão e libertava o estímulo alucinatório da desordem: a beleza convulsiva», Caillois afirmou (e em carta de ruptura com Breton e o Surrealismo) pretender manter a investigação e a poesia juntas. De facto, Caillois continuou o seu caminho de investigação que se manteve dedicado à exploração da natureza do sagrado na sociedade, acreditando ser um sistema que excedia o entendimento da razão e da filosofia.

O sistema que Caillois perseguiu o resto da sua vida deveria conter, simultaneamente, o maravilhamento na ciência: as novas descobertas científicas da época exigiam por si uma nova filosofia. Há de certa forma uma proximidade com Giordano Bruno (1548-1600) que, tendo defendido e introduzido a noção de inifinitude do universo e a sua continuada transformação ad infinitum, por oposição a um sistema integrado e rígido, imutável, de seres, defendido até então, uma inovação científica, portanto, em pleno Renascimento, acreditava simultaneamente em poderes humanos extraordinários e era filiado ao hermetismo.

Datado do século XI, Picatrix é o título hoje atribuído a um livro de magia oculta e astrologia originalmente escrito em árabe, posteriormente traduzido para espanhol e latim. Eugenio Garin, filósofo e historiador do Renascimento, considerou o livro – que compila textos do Próximo Oriente dos séculos IX e X sobre hermetismo, astrologia, alquimia, magia – uma obra indispensável para compreender uma importante parte da produção renascentista. O mesmo autor afirma: «O ponto de partida da obra é a unidade da realidade dividida em graus, planos ou mundos simétricos e correspondentes: uma realidade estendida entre dois polos: o Original, Deus a origem de toda a existência, e o homem, o microcosmos, quem, com a sua ciência (scientia) traz a dispersão de volta à sua origem, identificando e utilizando as suas correspondências.»

Também Caillois, por seu lado, se encontra entre os místicos materialistas que aplicam a sabedoria oculta do renascimento e a sua cosmologia mágica, unindo microcosmos e macrocosmos, herdeiro do pensamento mágico do século XIX, o que o leva mais longe do que os surrealistas no interesse pela magia – ao mesmo tempo que diverge deles ao interessar-se pelo fenomenologicamente maravilhoso, para além do subjectivo (a grande diferença em relação a Breton).
Mas o risco de se tornar a discussão simplista e a reduzir a uma tomada de posição dualista – objectivo/subjectivo; ciência/magia – não é o que interessa a Sofia Leitão. Nem este seria também o propósito de Caillois: a questão de fundo seria a de criação de um projecto epistemológico conjunto.

Em 1820, um ano antes da sua morte, John Keats escreve um poema onde inclui uma expressão que ficaria cunhada como anti-racionalista: Unweave a rainbow. No poema Lamia, Keats lamenta a perda para o “enfadonho catálogo das coisas comuns” do arco-íris, pois Newton descobrira com a observação de um prisma a decomposição da luz branca nas várias cores do espectro visível. Estava para sempre perdida a magia desse mistério até então encantadoramente insondável. Mas estaria mesmo? Ou não estará sempre a magia a reencontrar a vida em cada demonstração da sua existência? Em cada dúvida que precisa de ser dissecada e em cada surpresa com que a ciência nos presenteia?

Como Keats renega Newton, Breton recusa Caillois.
Da mesma forma que Caillois nega a impossibilidade de associar investigação e poesia, Sofia encena a dissecação da magia, para a dar a ver melhor.
Tal como Caeiro, que o faz, dizendo o seu contrário.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;
Os rios seriam homens doentes.

Alberto Caeiro

Sofia Leitão
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